A despedida de um gênio (publicado no site GP Total - 10/09)

O momento merece ser registrado e comentado. Após 16 anos, vemos hoje o fim da mais vitoriosa carreira da história da F1. Uma carreira com números que o grande Ayrton Senna sempre desejou e acabou falecendo na busca da imortalidade.
Mas o tedesco de Hurth-Herrmullen teve todos os méritos de estar no momento certo, na hora certa e na era certa para consolidar o seu nome na História. E é dessa forma que nomes se imortalizam: por OPORTUNIDADE.
Muitos e muitos que passaram, antes e depois de Schumacher, tem tanto ou mais talento que o alemão. Mas só talento não basta. Como tudo na vida, há de se ter sorte e oportunidade. E foi a conjunção de todos esses fatores que transformaram Schumacher no maior mito da F1.
Como Fangio, o maior antes dele, Schummy soube fazer as suas equipes trabalhar por ele. Como Senna, Schummy soube ter uma ambição desmedida para conquistar suas vitórias (ambição essa que custou algumas atitudes "antidesportivas", que, se são cometidas por um brasileiro, são completamente perdoáveis...). Como Prost, Michael aprendeu que não basta apenas ser rápido, há de ser frio, calculista e estrategista antes de tudo.
Somando tudo o que os grandes pilotos do passado tinham de melhor que Michael Schumacher atingiu o topo da F1. Seus recordes permanecerão incontestes por pelo menos 50 anos (basta observar o que ocorre na MotoGP com os recordes de Giacomo Agostini, que resistem ao talento extremo de Valentino Rossi, e com os recordes absolutos de Richard Petty na NASCAR, que resistiram bravamente ao talento excepcional de Dale Earnhardt).
A nova geração é extremamente talentosa, tão talentosa quanto às grandes gerações das décadas de 60, 70 e 80. Mas não será ela que quebrará esses recordes. Há talentos em demasia e, como comprovada nessas outras décadas, não será dessa vez que esses recordes serão quebrados (basta ver quanto tempo duraram os recordes de Fangio, construídos em uma situação histórica parecida com a era Schumacher). Alguns constestarão até a morte os recordes de Schumacher. Mas, como colocamos anteriormente, não basta talento para construir mitos: há de se ter sorte e oportunidade.
Alguns poderão dizer que Schumacher não teve adversários. Mas não considero que Damon Hill, Jacques Villeneuve (no começo da carreira, que fique bem claro), Mika Hakkinen, Kimi Raikkonen e Fernando Alonso sejam pilotos abaixo do talento de Nigel Mansell, Alain Prost, Keke Rosberg, Nelson Piquet, Emerson Fittipaldi e tantos outros grandes de outras eras. Se fossem tão ruins assim, não veríamos todos os rivais de Schumacher entre os 10 primeiros nas estatísticas de vitórias e a maioria deles com um ou dois títulos conquistados (inclusive em cima do próprio Schumacher, diga-se de passagem). O fato é que a conjunção de fatores positivos a favor de Schumacher ajudou a eclipsar alguns desses talentos. Méritos do alemão, e mais um ponto a favor de sua imortalidade.
Vejo a corrida de 22 de outubro como a partida de Santos x Cosmos em 1977: a última sinfonia de um gênio. E nós, brasileiros, teremos o privilégio de ver o fim da mais brilhante carreira da F1. Uma justiça para nós, brasileiros, que revelamos grandes talentos como Fittipaldi, Piquet, Senna, Barrichello e Massa. Sortudo será quem estiver em Interlagos nesse dia. Terá uma história para contar para os seus netos e bisnetos. Poderá dizer, daqui a 50 anos, que viu ao vivo o fim da carreira da maior lenda da história da velocidade. Do homem que quebrou todos os recordes, que ganhou todas as corridas, que venceu todos os títulos. Mas, acima de tudo, era humano como todos nós. Com todas as nossas virtudes e defeitos, com o que temos de melhor e de pior. Um momento histórico e inesquecível para todos nós, amantes da velocidade.
Para terminar, vou falar do "ciclo de campeões", uma coincidência histórica iniciada em 1979 e que Schumacher hoje pode estar dando seqüência. Nós, brasileiros, iremos nos lembrar que em 1979 um jovem piloto chamado Nelson Piquet assumiu o cockpit da Brabham Alfa Romeo em companhia do melhor piloto da época, Niki Lauda, bicampeão e de talento inconteste.
Pois bem, Piquet, com o seu talento natural, assistiu ao final da temporada a 1ª aposentadoria (Lauda retornaria em 1982) do austríaco. Em 1991, Piquet, então tricampeão e um dos grandes talentos de sua época, assiste à chegada de um jovem alemão para ser seu companheiro de equipe na Benetton. Seu nome? Michael Schumacher.
O que ocorre ao final daquela temporada? Piquet, tal como Lauda em 1979, rende-se ao talento do alemão e anuncia sua aposentadoria. Agora, em 2006, Schumacher divide seu cockpit com um jovem talentoso, Felipe Massa. Ao anunciar sua aposentadoria, Schumacher deixa claro que quem deve seguir o seu legado é o brasileiro Massa. Uma justiça histórica e que dá mais força a teoria do "ciclo de campeões". Agora a responsabilidade é de Massa. Deve manter o ciclo histórico de campeões iniciado por Niki Lauda. A responsabilidade é grande. Mas confiamos em você, Felipe !

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