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Médico, de centro-esquerda, coxa-branca, palestrino e ferrarista.

terça-feira, maio 01, 2007

Deficiência do Ensino Médico: a quem interessa?

Caros amigos,

Eu, como formando de medicina, não podia aqui deixar de registrar algumas considerações sobre o ensino médico do Brasil. Com 6 anos de faculdade pude testemunhar muitas coisas durante a minha formação médica. Como todos os alunos de Medicina, tive a percepção de que faltou muita coisa durante a formação, principalmente nas chamadas cadeiras clínicas e no período do Internato (período de estágio, de duração de 1 ano a 3 anos, dependendo da faculdade). O fato é que, nos últimos anos, vem se observando uma avalanche de abertura de cursos de Medicina (principalmente de faculdades particulares) em todos os cantos do Brasil, sem critério educacional algum e até sem hospitais-escola preparados e reconhecidos pelo MEC e pelo Ministério da Saúde para tal finalidade. Juntando a esse problema, observamos um sucateamento dos tradicionais cursos de Medicina do País, associado com o crescimento dos chamados "cursinhos pré-residência": uma espécie de cursinho pré-vestibular voltado para a preparação para as provas de residência médica, montados por professores de universidades públicas e privadas, médicos e ex-componentes de bancas de provas de residência.

A tentativa do MEC de alterar a prova de residência (diminuindo para 50% o peso da prova teórica) foi inócua no sentido de restringir o crescimento desses cursinhos. Muito pelo contrário: essas instituições cada vez mais ganham força e presença dentro da comunidade médica, devido exatamente ao caos instalado no ensino médico. A conseqüência imediata dessa proliferação é o detrimento da formação humanística e filosófica essencial ao profissional médico, refletindo sobremaneira no contato médico-paciente. A forma didática dos cursinhos ministrarem suas aulas são baseadas apenas na resolução das tais "provas teóricas da residência", deixando de lado a formação humanística, que seria obrigação da faculdade. É como se a baixa qualidade das faculdades fosse uma bola de neve, que cria cada vez mais problemas à medida que vai se passando o tempo na carreira dos jovens médicos. Muitas pessoas que já precisaram de assistência médica nas Unidades de Saúde, tanto as convencionais como as de urgência, relatam que grande parte dos problemas de atendimento decorrem da falta de profissionalismo e preparo de atendimento ao público dos profissionais médicos. Aí, fica a questão: será que o problema do Ensino Médico é tão somente a falta de recursos didáticos e financeiros das universidades, ou há outros interesses permeando essa situação?

Outra questão grave são as vagas de residência. Em reportagem do Estado de S. Paulo sobre o crescimento dos cursinhos pré-residência, coloca-se que cerca de 9 mil médicos estão chegando ao mercado de trabalho anualmente (dados de 2005). O que surpreende é que, de acordo com o MEC (http://mecsrv04.mec.gov.br/sesu/SIST_CNRM/APPS/cons_res_inst.asp), existem 9.900 vagas de residência de primeiro ano (R1) no Brasil, ou seja, teoricamente há vagas suficientes para abrigar todos os formandos que estejam saindo da faculdade. Aí, entra outra questão: porque então há tantos médicos que não conseguem vagas na residência? A reportagem coloca que os especialistas no assunto apontam a desproporção regional de tais vagas, bem como a concentração de candidatos em poucas especialidades (Dermatologia, Radiologia, Clínica Médica), como causas desse acúmulo de vagas. Outras causas são o interesse dos médicos em permanecer nos grandes centros, a falta de interesse e estímulo em buscar oportunidades no interior do País, a deficiência do ensino médico (mais uma vez!) no ponto de vista de formação humana e social, entre outras causas. Em resumo, todos esses fatores acabam agindo em um dos grandes problemas da saúde no Brasil: a falta crônica de médicos clínicos gerais e médicos de medicina comunitária em localidades carentes, sendo que a residência de Medicina de Família e Comunitária conta com 571 vagas autorizadas pelo MEC em 2007, porém o preenchimento dessas vagas não chega a 50% do total.

Para ilustrar toda a questão, irei postar duas reportagens que colocam essa questão em foco. A primeira foi publicada no Jornal do Cremesp, em março de 2002. A reportagem seguinte foi publicada no Estadão do dia 16/12/2006, a qual já citamos anteriormente para comentar acerca da questão das vagas. Espero que os colegas médicos e os usuários dos serviçoes de saúde tirem suas reflexões acerca do assunto e possam analisar de maneira mais apurada o quadro de saúde instalado em nossa nação.

Reportagem do CREMESP (http://www.cremesp.org.br/crmonline/jornalcrm/175/ensinomedico_0302.htm)


Entidades criticam “cursinhos” de Residência

O déficit de vagas para residência médica no Estado de São Paulo fez crescer a oferta de um tipo de serviço que preocupa as entidades médicas e especialistas. São os cursos preparatórios para provas de residência médica, que funcionam nos moldes dos cursinhos pré-vestibulares, têm fins lucrativos e oferecem aulas intensivas, apostilas e exercícios simulados.

Os programas de residência são hoje um prolongamento quase obrigatório do processo de formação básica. Apesar do crescimento das oportunidades nos últimos anos, o número de vagas da residência médica atende pouco mais de 70% dos cerca de 8.000 médicos que se formam anualmente no país. Destes, a metade dirige-se a São Paulo em busca de uma vaga de residência, situação que acabou despertando o interesse de empresários da educação.

A procura pela residência não é uniforme para todas as especialidades. Segundo Pedro Sampaio, presidente da Associação Nacional dos Médicos Residentes, “a procura maior acaba sendo para aquelas que dão um maior retorno financeiro, como dermatologia e otorrinolaringologia. Em contrapartida, há um excedente em áreas como pediatria ou para atuar no serviço público de saúde”.

Os cursinhos

A empresa Medcurso, que atua no Rio de Janeiro, acaba de abrir uma filial em São Paulo, com aulas aos domingos, das 15h às 20h, e mensalidade de R$ 295,00. Para impressionar, afirma contar com professores de escolas renomadas e com ex-integrantes de bancas de avaliação dos candidatos. “Não há intenção de preencher lacunas no currículo ou de ensinar medicina, mas sim de sedimentar conhecimentos já adquiridos”, defende o coordenador da Medcurso, Cássio Engel. “O curso acaba sendo um instrumento de democratização do ensino, proporcionando ao aluno um conhecimento teórico que ele não terá durante a residência; além de ajudar no Provão do MEC. Existem até professores que fazem reciclagem conosco”, completa.

Outro curso, o Attent, sediado em São Paulo, oferece os formatos de intensivo, em quatro dias, e extensivo, em seis dias, sempre no horário das 8h às 18h. Para 2002, o início das aulas e o preço ainda não estavam definidos. Além desses dois cursos, existem também em São Paulo empresas especializadas na confecção de apostilas para provas de residência, que são comercializadas por telefone e pela Internet.

Para a secretária executiva da Comissão Nacional de Residência Médica do MEC, Vera Lúcia Vilar de Araújo, “não compete ao MEC, pelo menos neste momento, opinar sobre a questão, pois seria o mesmo que as faculdades interferirem nos cursos pré-vestibulares.”

REPERCUSSÃO

“É inadmissível esse tipo de exploração, que vem somar-se aos muitos problemas do ensino médico. É sinal de que devemos reforçar ainda mais o trabalho da Cinaem/São Paulo, comprometida com o processo de avaliação permanente das escolas, feito conjuntamente por entidades médicas, alunos, professores e gestores de cada escola. Estamos empenhados em impedir a abertura de novos cursos de medicina, formar o médico com competência para atender as demandas da população e assegurar boas condições de trabalho e remuneração.” Regina Ribeiro Parizi Carvalho, presidente do Cremesp

“A existência desses cursos reflete a falência do ensino médico, tanto na graduação quanto na especialização da residência. A falha também está na elaboração dos concursos de residência, que priorizam o conhecimento técnico, testam apenas a memória e não a habilidade do candidato, o que acaba sendo explorado pelos cursinhos preparatórios”. Regina Celes de Rosa Stella, presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem).

“É mais um caso de mercantilização do ensino, de empresas que têm finalidade puramente lucrativa. É hora da Comissão Nacional de Residência Médica rever seus procedimentos, pois ainda faz uma seleção onde 90% da prova é de conhecimentos e somente 10% compreende entrevista e avaliação do currículo do aluno. Isso fere a lei de diretrizes e bases que permite a autonomia das instituições em adequar seus exames de admissão. E ao comprometer seu tempo com esses cursinhos, o estudante fica prejudicado no internato. Milton Arruda Martins, professor de Clínica Médica da USP.

“É mais um indicador das deficiências do ensino médico nas faculdades. O médico que opta por esse tipo de curso, geralmente é proveniente de uma escola ruim e muitas vezes nem está preparado para a prática médica. Não será um curso intensivo que vai suprir a má formação”. Pedro Sampaio, presidente da Associação Nacional dos Médicos Residentes (ANMR).

“É necessário discutir uma forma de barrar a proliferação desses cursos em São Paulo, já comuns no Rio de Janeiro. Aqui na USP a maioria dos estudantes é contra. Quem tem a obrigação de preparar para a residência é a escola.” Francisco Mogadouro da Cunha, do centro acadêmico da Faculdade de Medicina da USP e coordenador regional da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (Denem).


Reportagem do Estado de S. Paulo
(http://portal.saude.gov.br/portal/aplicacoes/noticias/noticias_detalhe.cfm?co_seq_noticia=28446)


Cursinhos se especializam em candidatos à residência médica - 16/12/2006

Emilio Sant'Anna

Foram três anos de cursinho pré-vestibular. Seis anos de graduação na Universidade de Santo Amaro (Unisa), em São Paulo, e, desde o começo de 2006, mais dez meses de cursinho preparatório para a prova de residência em Oftalmologia. O médico recém-formado Alan Barreira, de 25 anos, seguiu uma tendência cada vez mais comum entre os estudantes de Medicina: dividir o tempo de estudo entre os plantões, nos dois últimos anos de faculdade, e um curso especializado em aprovar alunos nos exames das principais faculdades e hospitais do País.

A residência é um dos caminhos da especialização para o médico. O outro é fazer a prova das sociedades e associações de especialidades médicas. As residências mais concorridas costumam ser as de dermatologia (130 candidatos a 6 vagas na Unifesp, por exemplo), ortopedia (80 disputando 5 vagas também na Unifesp), oftalmologia e clínica médica. "Valeu a pena fazer o cursinho, mas não é isso que vai decidir o sucesso", diz Barreira. "O importante é ter feito um bom internato (os últimos anos da faculdade)."

Pelo menos três grandes cursos - MedCel, SJT e MedCurso - já têm suas filiais espalhadas por todo o País. O primeiro tem ainda unidades em Santa Cruz de La Sierra e Cochabamba, na Bolívia, destino de muitos alunos brasileiros que fazem graduação no exterior. As aulas acontecem normalmente durante os finais de semana e contam com atividades online, além de serem transmitidas via satélite para as unidades mais distantes. O curso dura um ano e custa entre R$ 350 e R$ 500.

"Temos 52 unidades em todo o País, e outras 20 aptas a receber as aulas. Basta haver a demanda e estaremos lá", diz Atílio Gustavo Blanco Barbosa, diretor do MedCel. O SJT também tem planos de expandir suas 22 filiais no País. O curso, aberto há oito anos em São Paulo, tem cerca de 2.800 alunos e deve englobar mais dez unidades em 2007. "O curso é uma revisão da faculdade", diz o coordenador pedagógico do SJT, Raimundo Araújo Gama. "O aluno entra na faculdade com 17 anos e aqui tem o resgate de uma série de perdas que teve durante o curso." A direção da MedCurso foi procurada pela reportagem, mas não retornou as ligações.

DICAS PARA PASSAR NA PROVA

Apesar do sucesso dessas empresas, a opinião da maioria das faculdades sobre elas é desfavorável. "Não é uma atividade ilegal, mas é moralmente questionável", diz Maria do Patrocínio Tenório Nunes, coordenadora de Residência Médica da Faculdade de Medicina da USP. Ela questiona a presença de professores das universidades públicas nesses cursinhos. "Se eu aprendo todas as técnicas e metodologia de ensino em uma instituição pública, é ético cobrar por isso?", pergunta.

A opinião do coordenador do exame de residência da Universidade Federal Paulista, Flávio Faloppa, não é diferente. Preocupados em passar na prova, os alunos deixam as atividades da faculdade de lado. "A formação humanística vem através do dia-a-dia, da relação médico-paciente", diz. "Isso não se aprende nos cursinhos."

Um absurdo. Essa é a definição do secretário executivo da Comissão Nacional de Residência Médica do Ministério da Educação, Antônio Carlos Lopes, para o crescimento dos cursinhos preparatórios para provas das especialidades médicas.

A expansão, segundo ele, é reflexo da fragilidade de alguns cursos de Medicina. O aluno deixa de aprender onde deveria e tem de recorrer aos cursinhos. "Eles são uma ferramenta de exclusão social", diz. "Quem tem dinheiro pode pagar e receber uma série de dicas para passar nas provas que não têm o exame prático."

O exame a que Lopes se refere vem sendo adotado pelas universidades como forma de selecionar melhor os alunos e como desestímulo aos cursinhos. A primeira prova a adotar o exame prático foi a da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.

Há quatro anos, o exame era só com questões de múltipla escolha. Um ano depois incluiu as questões dissertativas. Hoje, essas questões têm peso 5. A parte prática, 4, e a entrevista, 1. "Concluímos que as provas de múltipla escolha são inadequadas para avaliar o conhecimento médico", diz Maria do Patrocínio Tenório Nunes. "São questões sem margem para interpretação."

MAL NECESSÁRIO

Para os alunos, no entanto, os cursinhos parecem continuar sendo um mal necessário. "É lamentável a proliferação dos cursinhos", conta a médica Andréia de Almeida Tamega, formada há três anos pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). "Mas as provas não condizem com nosso internato."
A própria Andréia não escapou. Após se formar, ingressou na residência em Saúde Pública. No último dos três anos da especialização começou a fazer o cursinho para prestar a prova para dermatologia. Agora está no primeiro ano de sua segunda residência. "Hoje, as pessoas não estudam mais pelos livros acadêmicos e sim pelas apostilas desses cursos", revela.

NÚMEROS

9.113 formandos em Medicina chegaram ao mercado em 2005. Depois de seis anos de faculdade, tornam-se clínicos gerais e a maior parte irá tentar se tornar especialista em alguma área. A prova de residência médica é a forma mais indicada para isso
17.861 vagas de residência médica são oferecidas todos os anos, em média. Os números são do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) do Ministério da Educação (MEC). Apesar de ser superior ao número de formandos por ano, especialistas apontam insuficiências como a alta concentração regional
149 cursos de Medicina estão espalhados pelo Brasil. Destes, 39 são federais, 24 estaduais, 6 municipais, 34 particulares e 46 filantrópicos
29 cursos de Medicina são oferecidos no Estado de São Paulo. Isso corresponde a quase 20% do total

O Estado de S.Paulo
16/12/2006

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