Blog do René Santos Neto

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Local: Curitiba, Brazil

Médico, de centro-esquerda, coxa-branca, palestrino e ferrarista.

domingo, agosto 17, 2008

House: o anti-herói da Medicina


O que o House faria? Depois que o a série de TV blockbuster “House M.D.” estreou, em 2004, essa se tornou uma pergunta corriqueira em discussões clínicas de diversos hospitais pelo mundo afora. O paradoxal médico, viciado em codeína, se tornou em um hit no meio médico. Um pouco por conta de suas condutas nada ortodoxas, um pouco por sua personalidade única e muito por sua genialidade. Mas House, como médico, só poderia existir nos EUA, em um sistema baseado na alta tecnologia e na pujança de recursos. Caso ele cruzasse a fronteira para o Canadá, ele seria execrado por ser um médico que não cultiva a relação médico-paciente, por gastar milhares de dólares em exames inúteis e por destroçar relações em equipes médicas e multiprofissionais. Por todo esse paradoxo que envolve sua conduta médica e pessoal, House é atraente. E atrai porque House expressa na essência o adágio maquiavélico “Os fins justificam os meios”: independente dos riscos e das dificuldades que House pode criar ao paciente na busca pelo diagnóstico, o que vale é que ele consiga chegar à conclusão de seu raciocínio clínico e, por conseqüência, no seu tratamento mais eficaz.

As velhas séries médicas estadunidenses, notadamente Dr. Kildare (estrelada por Richard Chamberlain), eram seriados que exploravam a figura benevolente e paterna do médico, como um modelo de pessoa e de conduta pessoal, que representava a velha dicotomia “mocinho-bandido”: o médico deveria ser um mocinho em todos os aspectos, desde como se portar perante à sociedade bem como em sua conduta médica, não ultrapassando limites éticos e seguindo os preceitos hipocráticos. Outras séries médicas mais modernas, como “E.R.”, já começaram a mostrar uma figura mais humanizada e frágil do médico, como alguém que também sofre e tem seus conflitos internos. Mas House foi além: o personagem central é a expressão do anti-herói, do gauche, ou seja, alguém que foge dos padrões de correção e postura de nossa sociedade. E por ser torto na vida é que House impressiona. Porque mesmo convivendo com uma dor lancinante em sua coxa esquerda (compensada parcialmente com muito Vicodin), com uma rabugice que deixa aqueles que trabalham com ele próximos das raias da insanidade e com uma personalidade pétrea, quase que megalomâna, House acaba por atingir seus desfechos. Sua capacidade de dedução e intuição quase sherloquianas (os produtores de House se inspiraram na criação do torto médico no famoso detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle, que também era médico) são os pilares que tornam a série tão cativante para seus fãs.



Mas comentemos da face médica de House. O que House representa é aquilo que temos vontade em certos momentos de nossa conduta médica: de mandar tudo às favas e bater de frente com os pacientes e com nossos chefes para chegarmos ao nosso objetivo. É mais ou menos como se quiséssemos despertar o Maquiavel que existe dentro de nós. Quem, ao assistir House, nunca teve vontade de fazer como ele, fugir do plantão estressante cheio de IVAS e GECAs para ir buscar o diagnóstico daquele caso difícil que está na enfermaria? Quem nunca teve vontade de “invadir” a casa dos pacientes para buscar elementos para sustentar a história clínica do paciente? Ah, e quem nunca teve vontade de pedir “MRIs” (RNM) à vontade como o paradoxal médico estadunidense? No final das contas, House é um pouquinho daquilo que queremos ser. De não ter limitações e medos para buscar os nossos objetivos.

Na vida real não podemos e não devemos ser como House. Mas temos que ter um pouco de House dentro de nós. Medicina, além de arte, é feita de inspiração e intuição. E House, por mais hi-tech que seja, é o amálgama entre a tecnologia e a arte médica. É a união entre a tecnologia de ponta e a intuição médica, que jamais será suplantada pela máquina. Afinal, de nada adianta termos o exame mais sofisticado, a imagem mais detalhada, se não houver um profissional capaz de interpretar e correlacionar as informações geradas eletronicamente em seus dados clínicos. Não devemos temer a tecnologia: devemos sim é adaptar ela à nossa realidade médica para aprimorarmos a arte, a nossa arte, a Arte da Medicina.

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sexta-feira, julho 06, 2007

Juramento de Hipócrates

"Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higéia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.

Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.

Conservarei imaculada minha vida e minha arte.

Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.

Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.

Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."

Hipócrates - Pai da Medicina

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